Deborah estava estarrecida com a notícia que acabava de receber. Seu pai fora assassinado. Não conseguia acreditar numa coisa dessa. Quem poderia querer matá-lo? Ainda sofria com a sua partida precoce, sentia-se perdida. Ele era seu porto seguro. Sentia-se abandonada. Descobrir que foi assassinato era muito duro de acreditar. Por quê? Por quê? Fazia a si mesma esta pergunta inúmeras vezes e não chegava a nenhuma resposta. Seria por dinheiro? Por poder? Por vingança? Quais seriam os motivos de tal ato? Mais perguntas sem respostas.
Deborah está deitada em sua cama, pensando em sua vida. Sua mãe morrera quando ainda era uma criança. Só tinha seu pai e seu irmão. Agora era só ela e o irmão. Seu irmão, Afonso, ficara muito abalado com a morte de nosso pai. Aliás, todos nós ficamos. Papai tinha 63 anos, era um poço de vitalidade, dizia que iria trabalhar até os 80 anos, tamanha vontade e dedicação que ele tinha com as empresas. Ele herdou, aos 28 anos, uma pequena fábrica de confecções de seu pai e conseguiu criar um império, um imenso conglomerado de empresas, atuando em vários setores da economia.
Deborah tem 30 anos, fez administração de empresas e fez especializações no exterior e há um ano começou a trabalhar na holding do grupo. Afonso já trabalha na holding há dez anos, ele é mais velho, tem 43 anos, casado com Margareth e tem um filho, Eduardo, com 19 anos, ultimamente um rapaz problema. É uma dor de cabeça atrás da outra, se envolve com gente da pesada. Afonso já o ameaçou de deserção, mas mesmo assim ele não toma jeito.
Com a morte de seu pai, Deborah e Afonso herdaram tudo. Deborah antes nunca havia se preocupado com isso, pois via seu pai vivendo pelo menos até os 90 anos. Era solteira e nunca quis se envolver seriamente com ninguém, pois acostumou-se a ter pessoas a sua volta que se interessavam apenas pelo seu dinheiro. Podia dizer que tinha uma única amiga, daquelas amizades eternas, a Estela. Eram amigas desde a adolescência. Mas agora Estela morava na Europa, e se viam poucas vezes. Namorou alguns homens, até descobrir sua preferência por mulheres. Seu primeiro beijo numa mulher foi aos 21 anos, com uma colega da faculdade e namoraram alguns meses. Envolveu-se com algumas mulheres, mas percebia todas interessadas na sua fortuna. Chato isso! Seu sonho era encontrar alguém que a amasse pelo que era e não pelo que ela tinha. Sim, Deborah era uma romântica incorrigível. Tinha esperanças de um dia encontrar uma mulher decidida, forte, que a ame e a proteja e não apenas veja o seu dinheiro. Que a olhe e veja como ser humano que ela é. Ainda iria encontrá-la, um dia.
Levantou-se e foi ao banheiro, abriu a água para encher a banheira e olhou-se no espelho. Via uma mulher bonita, olhos azuis, cabelos pretos curtos e arrepiados. Gostava do seu estilo meio rebelde, mas no trabalho usava roupas adequadas à função que exercia, mas quando estava fora dele, vestia-se despojadamente. Tomou seu delicioso e relaxante banho de espuma. Ah, isso me renova. Pensou. Sentia-se outra depois dessa delícia. Terminado seu banho, vestiu uma calça jeans, uma blusa de lã e um casaco por cima e botas. Resolveu dar uma saída. Precisava espairecer. Foi dar uma caminhada sentindo o vento gelado batendo em seu rosto. Gostava dessa sensação. Adorava o inverno, e estávamos no início da estação.
terça-feira, 23 de outubro de 2007
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