O inverno fazia-se presente mesmo dentro da sala aquecida pelo condicionador de ar. Estava muito frio. O inverno estava sendo rigoroso este ano. Erica estava em sua sala, analisando um caso que estava sob sua responsabilidade. Era investigadora policial, cargo que exercia por puro prazer, pois costumava brincar que jamais ficaria rica com ele. Erica gostava de fazer as coisas por prazer. E gostava do desafio de desvendar os mistérios de um crime, descobrir sua motivação. Isso a excitava, a estimulava, mas a sua excitação suprema era estar sob os lençóis com uma bela mulher.
Já tinha sido guarda-costas, exerceu esta atividade por seis anos. Protegeu em sua carreira quatro pessoas e quase morrera no seu último serviço. Sorte sua estar com um colete à prova de balas, senão até essa hora estaria prestando contas dos seus pecados. Riu desse pensamento. Mas não foi por isso que desistira, na realidade a atividade não a desafiava mais. Foi treinada para ser guarda-costas, especializara-se nisso. Chegara a ficar seis meses nos Estados Unidos aprendendo novas técnicas. Mas a arte investigativa parecia, para ela, ser mais instigante, mais desafiante. Era movida a desafios. Claro que estaria muito melhor financeiramente se continuasse como guarda-costas, pois era extremamente bem remunerado. Não era pessoa de luxos, vivia bem, mas sem tê-lo. Dizia que pouco lhe bastava para viver. Estava como investigadora há cinco anos e ainda tinha suas economias da época de outrora.
Não era adepta de usar roupas de marca. Aliás, tinha aversão, dizia que teriam que lhe pagar para fazer propaganda para os outros, pois não era nenhum outdoor ambulante. Trajava-se com calças jeans justas que evidenciavam seu belo corpo, gostava de camisetas e botas. Suas camisetas eram somente de algodão e lisas, sem estampas, e não suportava tecidos sintéticos, usava de todas as cores e coladas ao corpo, o que mostrava sua musculatura bem trabalhada. No inverno adorava usar casacos de couro. Tinha vários deles e eram o seu único luxo. Estava usando neste momento um casaco marrom comprido quase até o joelho. Este era o seu estilo, já que não ligava para moda.
Seu porte era atlético, com um corpo bem torneado em virtude de anos da prática da arte marcial do Karatê. O Karatê-Do, que quer dizer “caminho das mãos vazias”, era sua paixão desde os 16 anos, e tornou-se faixa preta aos 23 anos. Praticava-o constantemente, pois sabia ser excelente exercício para o corpo e mente. Em virtude disso nunca foi para uma academia de ginástica. Não suportava esses ambientes. Morava em Curitiba, cidade que aprendera a amar há 12 anos, adorava fazer caminhadas pelos parques, mas em virtude do tempo no inverno estar sempre chuvoso, tinha sua esteira, onde andava por quase uma hora, quase que diariamente. Assim, mantinha seu corpo saudável aliado a uma alimentação balanceada.
Seu ponto fraco eram as mulheres, loiras, morenas, ruivas, não tinha uma preferência definida, bastava ser bonita, um corpo atraente e claro, inteligência e pronto, caía em cima. Não gostava de mulheres burras ou mimadas. Achava-as insuportáveis. Tinha 33 anos, tivera vários relacionamentos, sempre com mulheres, mas nunca chegara a compartilhar sua vida com uma mulher. Somente as namorava e quando perdia o interesse, partia pra outra. Não se agarrava a nenhum relacionamento. Mas não se considerava volúvel, pois em todo relacionamento sempre fora fiel, achava apenas que se acabasse o interesse pela mulher, devia acabar e partir pra outra. No momento estava sozinha. Seu último relacionamento acabara há dois meses.
Seus olhos castanhos escuros percorreram a última evidencia colhida para a elucidação do caso de assassinato que investigava. Estava a um passo de pegar o assassino. Tinha dois suspeitos, mas estes tinham um álibi que lhes tirava do local do crime. Se não fosse isso já estariam presos.
Tornou-se investigadora quando fez um concurso público. O certame foi concorrido e tinha estudado muito. O que lhe ajudara foi ter feito a faculdade de direito. Nunca exerceu a profissão de advogada, aliás não se via como uma. Tornou a olhar a evidência, este caso lhe intrigava. Era o assassinato de um homem, dono de uma loja de móveis, como se fosse um latrocínio. Os principais suspeitos eram sua própria mulher e seu amante, que era também seu álibi. Acreditava ser a mulher a mandante do assassinato.
Resolveu levantar e tomar um café. Ia dar um giro pela delegacia para espairecer um pouco. Foi até a cozinha e serviu-se de uma xícara de café. Nisso entra seu colega de trabalho e grande amigo Roberto, também investigador. Este já trabalhava a mais tempo no cargo. Fora ele quem a ajudara no início. Tinham se tornado excelentes amigos. Roberto sabia de sua homossexualidade, na realidade ela não a escondia de ninguém, apenas não andava com isso estampado na testa. No início Roberto deu em cima dela, era uma cantada atrás da outra, até que um dia teve de dizer que tinham algo em comum, além do cargo: mulheres. Ele ficou chocado, mas acabou aceitando o fato e as cantadas cessaram como que por encanto.
- E aí, Erica, já resolveu seu caso? Perguntou Roberto.
- Quase. Só falta eu derrubar o álibi.
- Eu tô com meu caso enrolado. Acho que vai ser mais um daqueles sem solução. Odeio quando isso acontece. Parece que sou incompetente. Disse e suspirou. Serviu-se de um café também.
- Fazer o quê, amigo. Temos poucos recursos, e o pouco que temos às vezes não ajuda muito.
- Hummm... é verdade. Você vai ao aniversário do delegado? É hoje à noite. Perguntou mudando de assunto.
- Devo ir. Respondeu Erica.
- Eu também. Ainda bem que ele é camarada. Se fosse chato acho que não iria. Roberto disse rindo.
- Ah, Roberto, você sempre implica com o chefe. Deixe disso homem. Falou Erica.
- Você diz isso porque é a queridinha dele, pensa que eu não sei que se você o deixasse te carregava no colo. Falou provocando ela. – Ele arrasta as duas asas por você. Disse e riu.
Erica riu do comentário dele. Realmente era verdade. O delegado, o Dr. Pereira, sempre dava um jeitinho de mostrar que estava interessado nela. Era um safado, pois vivia traindo a mulher. Mas cortava o barato dele sempre. Erica costumava dizer que se fizesse assim com o dedo ele viria igual um cachorrinho, Eu, hein, tô fora. Gosto disso não. Pensou Erica.
domingo, 21 de outubro de 2007
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